Agressões verbais, desrespeito, insultos e provocações: qual é o verdadeiro caráter das artes marciais?

Agressões verbais, desrespeito, insultos e provocações: qual é o verdadeiro caráter das artes marciais?

Os lutadores de artes marciais são como uma espécie de espelhos para muitas pessoas sejam elas crianças, adolescentes ou adultos. Eles se tornam referência e modelo de sonho para muitas delas e esta é uma responsabilidade deveras grande.

As artes marciais ensinam muito mais que técnicas para neutralizar um adversário ou golpes traumáticos. Quando você realmente consegue imergir na filosofia delas, consegue entender que há valores apreendidos dentro do dojô que podem ser aplicados para fora dele.

O respeito e a humildade são dois de tantos valores que eu perderia um dia inteiro se fosse listar e explicar cada um deles. Mas, me atendo a estes dois, por exemplo, eu acredito que traçaremos bons argumentos para esta crônica.

Não tem como trabalhar como assessora de imprensa da Team Nogueira e não respirar artes marciais o tempo inteiro e de uns tempos para cá, principalmente ao estudar a metodologia da Team Nogueira, percebi certas contradições em alguns lutadores de MMA e artes marciais.

Uma contradição desta que me refiro é quase que corriqueira em competições de MMA. Obviamente que não estou generalizando, mas você, leitor, que também é fã de artes marciais vai entender e se lembrar do que eu vou te perguntar: “- Quantas vezes, após uma luta, o vencedor comemora a sua façanha sem ao menos se preocupar com o bem estar do oponente que ainda está apagado no tatame?”

O que falar sobre as provocações do Chael Sonnen sobre o Anderson Silva e a sua família e tantas outras que se renovam todos os dias e em cada novo grande evento de artes marciais. Lamentável.

Eu nem posso dizer que “na minha época era diferente” porque eu sou uma novata praticante de artes marciais. Contudo uma coisa eu posso afirmar com veemência: este não é o respeito que eu aprendo no dojô com meus companheiros de treino. E então paro para me perguntar se essa conduta de comemorar a sua vitória antes de saber se o adversário está bem é aceitável para o verdadeiro artista marcial.

Oras, faz parte do flairplay, digamos assim, respeitar a quem vencemos. Afinal de contas, se hoje foi o seu dia, amanhã pode não ser e se o oponente está dividindo o tatame, ringue, octógono (que seja) contigo é porque ele está ali em condições iguais de vencer. Nada mais justo que você respeitá-lo e comemorar a sua vitória somente depois que ele mostrar sinais de que está bem. Eu acredito que esta banalização e desrespeito com as artes marciais precisam mudar.

Foto: Site Combate – De vermelho Joanna Jedrzejczyk e de cinza, Rose Namajunas

No UFC 217 podemos destacar outro exemplo com o combate de Joanna Jedrzejczyk e Rose Namajunas que foi recheado de maus arquétipos do começo ao fim, pelo menos por parte de Joanna. A gente sabe que faz parte toda a provocação e tudo mais, que o show tem que continuar, porém o que eu me pergunto é onde está o equilíbrio nisso tudo?

Provocações e insultos têm limites e Rose Namajunas soube muito bem, com um belo nocaute, mostrar qual é o seu objetivo com as artes marciais. Lembro bem que no final da luta, quando ela se percebeu com o cinturão em suas mãos, a primeira coisa que ela disse foi que aquele cinturão não era absolutamente nada frente aos valores que as artes marciais possuem.

Parece até uma falta de respeito ouvir da campeã e nova detentora do cinturão do peso-palha do UFC falar que o seu cinturão não era nada, mas se você for parar para refletir no peso e na profundidade desta frase, vai entender que o que ela quis dizer é que os valores das artes marciais são maiores e mais importantes e, naquele momento ali, eu me senti representada por ela, naquele momento eu percebi que o trabalho que os mestres da Team Nogueira fazem, por exemplo, com as crianças que estão matriculadas nas nossas academias é essencial para a identidade delas e no tipo de lutadores e até mesmo cidadãos que elas se tornarão futuramente.

Isto é, ou você doutrina um lutador sem valores e ele se torna um atleta incompleto, dotado de técnicas, mas com pouco coração e valores como o respeito e a humildade ou você ensina a um lutador que a vitória está no esforço que você empregou para derrotar seus obstáculos e não simplesmente numa medalha ou cinturão.

O que eu quero dizer com isso é que menos é mais. Enquanto a Joanna Jedrzejczyk concentrou todos os seus esforços em insultar e provocar a sua adversária, acreditando que a sua vitória era certa, que era superior, Rose Namajunas fez o contrário e se concentrou na sua luta, em mostrar ao público que as artes marciais é muito mais do que o dia do evento ou do embate entre competidores.

Em sua coletiva de imprensa após a sua luta, Rose disse “O MMA tem tido muita provocação e coisas do tipo, e sinto que as pessoas não têm sido verdadeiras consigo mesmas, nem honestas. Talvez elas pensem que precisam fazer isso para entreter, mas estou cansada disso. Estou cansada do ódio, da raiva. Sinto que tenho um dever como lutadora de ser um exemplo melhor. Acho que chegou a hora de uma nova era no esporte. Acho que temos a oportunidade, como lutadores e atletas, de sermos bons exemplos. Não sou perfeita, de forma alguma, mas podemos tentar. Eu costumava lutar com ódio, e houve muita agressão no meu passado, mas é porque eu fui machucada. Descobri que o amor é uma energia mais sustentável do que o ódio”.

E depois de ler todo este discurso eu me enxerguei nele. De nenhuma forma eu pretendo me tornar uma atleta profissional de MMA, mas vivendo tudo o que vivo na Team Nogueira e dentro do dojô com os amigos de Jiu-Jistu eu posso experimentar na prática todo este amor que a própria Rose cita. Os graduados, os atletas de alta performance, os grandes campeões que estão lá dentro da Team Nogueira te ensinam diariamente que a humildade faz o homem.

Eu fico pensando quantos pais e mães veem este tipo de má conduta e desistem de incluir seus filhos neste ambiente. Enquanto na realidade, quem vive isso diariamente sabe muito bem que a verdadeira arte marcial pode mudar o mundo para melhor e eu não estou falando isso figurativamente. Dentro do olhar de uma Comunicóloga, que sou, além de tudo ainda se trata de um marketing negativo para as escolas de artes marciais que precisam vencer primeiramente estas barreiras com os pais que ainda precisam entender acerca dos benefícios delas para suas crianças.

Então que o amor continue prevalecendo, que a humildade permaneça à frente da cabeça dos lutadores e que o respeito jamais seja esquecido entre os atletas justamente para que não tenhamos mais deturpações a respeito do caráter das lutas, das artes marciais. Já temos tantos preconceitos que envolvem esta temática, de maneira que não vejo nenhuma vantagem nesta supervalorização nas provocações, insultos e agressões verbais.

**Tamyris Torres é jornalista e pós graduada em Jornalismo Esportivo e Negócios do Esporte.

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