Especial UFC Minotouro – A última semana, por Aline Nogueira

Especial UFC Minotouro – A última semana, por Aline Nogueira

Não sei ao certo como começar este texto… Mas desta vez tudo está sendo diferente. Nos últimos seis anos – tempo que conheço o Rogerio – a minha dedicação a cada luta dele nunca foi de 100%, e sim de 220%.

Eu sempre trabalhei com o meu marido, mas assim que recebíamos a notícia que tinha luta pela frente, eu iniciava todo um planejamento da logística de todo o camp – treinamento. O processo sempre iniciava com uma planilha de quem faria parte da equipe daquele camp: preparador físico, fisioterapeuta, treinador de boxe, muay thai, jiu jitsu, wrestling… E dali em diante fracionava o tempo que tínhamos para a luta, sempre tendo muita clareza do meu papel: fazer com que o Rogerio focasse 100% nos treinos sem precisar pensar, por exemplo, na documentação e passagem do treinador gringo, nos horários da sua agenda, na comida que se alimentava, nos médicos que precisava ir… A minha mente era voltada para tentar pensar como se fosse ele. A pergunta que aparecia na minha cabeça todos os dias de camp era: “- O que é melhor para ele?” E assim saia executando. Lógico que toda a parte técnica: escolha de treinadores, schedule de treinos e feedback dos treinos sempre era feito com o head coach afinal não me competia, mas eu me sentia lisonjeada de ao final do treino dele de noite ele me perguntar se eu vi o direto que ele deu no treino ou o que eu achava sobre a performance dele ou se eu havia assistido as lutas do adversário e percebido que toda vez que ele chuta, abaixa a mão esquerda… Enfim, jamais opinaria em uma área que não fosse minha, mas era meu dever passar essas informações que ele me confidenciava, aos treinadores, pois eles sim saberiam o que fazer com elas.

Enquanto isso eu agendava exames, levava ele para médicos e outros compromissos – uma época que eu sempre dirigi para ele – tirava todos os assuntos relacionados da empresa do caminho dele, contando sempre com o apoio do meu cunhado Rodrigo e da minha cunhada Milena, além do auxílio do meu sogro e conselheiro do Grupo Team Nogueira, Seu Hamilton; e desta forma o blindávamos para que ele tivesse mente limpa para focar na luta.

Todo feedback de treino os treinadores sempre passavam para mim, para entender se em casa o Rogerio estava descansando, se alimentando direito e da mesma forma eu os retribuía com os feedbacks do Rogerio nos treinos. E isso é engraçado, pois em um meio onde muitos acham que é ambiente para homens, eu sempre tive uma relação excelente tanto quanto à equipe, quanto com a própria organização do UFC.

Acredito que o que sempre fez essa relação ter harmonia foi sempre deixarmos claro que o objetivo de todos deveria ser o mesmo: termos o melhor do Rogerio. É um papel difícil, apesar de sempre ter me dado prazer em fazer… Afinal, quando um atleta de alto rendimento entra em camp, ele se priva de muitas coisas, reduz a alimentação, tem um desgasto físico absurdo, estresse a flor da pele, e é claro, na falta de humor… Quem absorve mais são as pessoas que ficam conectadas 24 horas com o atleta, no caso, era eu.

Me lembro que quando aprendi a pressão e o desgaste que ele passava nos treinos, a minha atitude era , tomar um banho, por vezes eu chorava no chuveiro para descarregar todo o peso que tinha nas costas e saia do banho zerada e pronta novamente para continuar até o fim. Na semana da luta, é um momento mais delicado, a pressão aumenta, a imprensa vem para cima, junto disto temos a reta final do corte de peso e tudo deve estar impecável para que ele faça o corte de peso, descanse, recapitule a estratégia da luta que traçou com a equipe de treinadores e mantenha a mente limpa, pensando exclusivamente na luta.

O meu papel na semana da luta sempre foi muito além de fazer comidinhas para o Rogerio, eu fazia o check in dele, enquanto ele assinava os cartazes eu ia para o quarto tirar todas aquelas comidinhas deliciosas do frigobar da vista dele, as substituindo pelas compras que eu fazia no mercado: gelatina zero, água, poucas frutas, planejamento alimentar da semana, café, separação das doses dos suplementos, organização do cronograma dos compromissos do UFC da semana e fora isso: ficar à postos para o que ele ou a equipe precisasse.

Isso inclui ir atrás da sauna para ele fazer, tentativa de troca de entrevistas para que ele possa descansar mais, garantir as refeições dele, o bem estar da equipe, os amigos que começam a ligar para ter notícias e que querem presitigiá-lo no evento… Enfim, é um trabalho que sempre gostei de fazer. Muitas pessoas sempre me perguntam como que eu consigo assistir a luta do meu marido ali de pertinho e a minha resposta é muito simples: eu sei tudo o que ele fez durante o camp, eu sei da capacidade dele, do desempenho dele, da determinação, da disciplina e assim eu consigo sentar e assistir a tudo independente de resultados.

É claro que ninguém quer ver a pessoa que ama sendo derrotada, mas sempre conversamos muito sobre e neste esporte sabemos que tanto a derrota quanto a vitória fazem parte do resultado; mas que o mais importante é ele ter dado o melhor; é ele entrar no octógono sabendo que fez tudo que deveria ter feito. Assim foi Rashad Evans, Anthony Johnson, Maurício Shogun, Patrick Commins, Ryan Bader – inclusive nesta luta eu estava grávida de sete meses e meio.

Depois de um tempo parado, recebemos a notícia de mais um desafio: uma luta marcada com dois meses de camp. O Grupo Team Nogueira e principalmente a nossa rede de academias se encontra numa outra fase – maravilhosa por sinal – nós dois agora já não estamos sozinhos, temos o Roger e o Romero, foi onde à pedido do Rogerio eu tomei as rédeas da empresa para que ele pudesse se dedicar para a luta.  Adorei o desafio, até porque eu já estava bem inserida em todos os departamentos da Team Nogueira e vinha fazendo um trabalho com resultados, mas segurar tudo para que ele pudesse fazer este camp de forma tranquila me gerou vários desafios. Não tive a menor chance de ter licença à maternidade, tive que me adaptar a muitas coisas novas e tudo ao mesmo tempo. E com tantas funções e trabalhos a fazer, antes de dormir surgia aquele vazio por eu não estar o auxiliando da mesma forma que fiz das outras vezes.

Desta vez acompanhei tudo de longe e com o coração apertado. Mas sabendo que era o que eu precisava fazer, afinal ele confiou à mim os negócios. Dia após dia, fui me conhecendo melhor, entendendo o porquê eu sentia tanto de não poder estar tão próximo dele quanto gostaria e porque dos meus sentimentos como esposa, como mãe, como mulher, como amiga e parceira; precisei entender que desta vez, o papel de maior importância era outro. Não deixei de seguir a dieta junto com ele como sempre fiz… Acho que é uma questão de cumplicidade e empatia, reconhecer que o outro está se privando de muita coisa, e comunicar a mensagem que estou com ele.

O amor que une a nossa família e a minha dedicação agora nos negócios, me fazem não ter dúvidas de levar motivação à ele, pois estamos juntos para mais uma batalha. Agora são 01 hora e 37 minutos da manhã aqui em São Paulo, escrevendo sobre companheirismo e ao mesmo tempo à postos para o que ele precisar.

 

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