COLUNA ROGÉRIO MINOTOURO: Não se pode controlar o vento, mas podemos ajustar as velas

 

Há 14 anos eu me lembro de que eu entrava no tatame todos os dias e observava a um amigo que treinava conosco…  Ele viveu do esporte e estava há algum tempo fora das competições por conta de uma lesão.

Ele pretendia voltar a competir em alto rendimento e sempre falava que tinha planos de voltar, inclusive, já teve resultados expressivos em competições internacionais, frequentava o treino de atletas profissionais e treinava conosco, embora naquela época nem todos viviam exclusivamente do esporte e muitos tinham uma profissão paralela a de um atleta profissional.

Eu o via na academia todos os dias com a sua luva na mão, treinando, batendo no saco, mas muitas vezes num ritmo mais lento na execução das técnicas, nos sparrings, por exemplo, eu observava que tinha experiência e técnica, contudo não ia até o seu limite. Por muitas vezes nos treinos coletivos, quando podia, ele escolhia um oponente mais leve ou inferior tecnicamente para dar um treino mais tranquilo. Ou seja, evitava dar 100% e eu observava isso.

Porém tinham dias o que treinador notava o seu desânimo e o colocava para treinar mais puxado. Muito embora ele estivesse desanimado, este atleta não faltava nenhum dia de treino.

Agora eu te pergunto: “- Será mesmo sem atrasar e faltar um treino, ele estava tendo disciplina para competir em alto rendimento como antes?”

Ocasionalmente conversava com ele após o treino. Perguntei a ele, em uma oportunidade, sobre como estava o seu treinamento, se ele estava indo bem… Ele me disse que treinava todos os dias, que não estava muito bem, pois aparentemente não estava com o físico muito bom, que estava um pouco fora do peso e que por conta da sua lesão, ainda não poderia aumentar o seu nível de intensidade.

A sua lesão era no joelho e já havia dois anos desde o ocorrido, entretanto, se sentia receoso em piorar a lesão se aumentasse a intensidade dos treinos. Lembro bem que ele vivia reclamando que não tinha luta para ele e que tinha outros atletas na equipe com mais oportunidades.

Em contrapartida, havia grandes atletas com quem tive a oportunidade de dividir o tatame e com quem eu aprendo muito até hoje por serem determinados e extremamente disciplinados .

Estes dois atletas tinham uma história bem diferente do atleta que citei acima. Nesta mesma época eles estavam com uma excelente forma física e se você os visse treinando, você iria entender o motivo de terem uma performance perfeita e porque chegaram aonde chegaram.

Eles eram totalmente focados, tinham um objetivo e sabiam aonde queriam chegar. Por isso treinavam com uma intensidade muito alta. Executavam técnicas  exaustivamente  sem o professor pedir , gostavam de ir ao limite e se superarem.

Eles tinham a consciência que o rendimento nos treinos e o resultado positivo nas competições dependiam deles também. Entendiam que a confiança na hora da  luta para conseguir executar o que queriam com tranquilidade e o tempo necessário dependia muito do treinamento continuo e exaustivo .

Davam tudo de si nos treinamentos e competições…

Há três anos e há um ano, sucessivamente cada um deles viveu a pior fase de suas carreiras. Verdadeiros acidentes… Um quebrou o braço, foi surpreendido por uma chave de braço que lhe rendeu uma fratura, logo depois passou outra dificuldade, uma cirurgia no quadril que o afastou dos treinos de alto rendimento por pelo menos oito meses.

O outro atleta fraturou a perna em um chute que aplicou na luta e defendido pelo seu adversário, esta foi uma luta realmente muito marcante e isso lhe custou um ano afastado das competições. Foram verdadeiras tragédias, cenas chocantes que marcaram o esporte.

Você poderia pensar que ambos os atletas teriam se abalado com tamanha dificuldade e abandonado o esporte depois de lesões tão graves e de forma tão dramáticas.  Em vez disso, eles foram extremamente positivos e só trabalharam  em torno da recuperação, fazendo sempre o que dava para fazer sem precisar sobrecarregar os membros machucados .

Superaram dores e os medos e em alguns meses, voltaram a treinar em alto rendimento. Retornaram e nos deram uma verdadeira lição de vida e disciplina.

No final das contas, eles me ensinaram duas coisas parecidas, que estavam  usando esse tempo para trabalhar em algumas de suas áreas mais fracas que  precisavam ser reforçadas e que as dificuldades que precisavam ser melhoradas de qualquer maneira.

É impressionante o que a atitude, foco, determinação, constância, comprometimento e disciplina em trabalhar duro junto com a equipe unida pode fazer a diferença.

Estes dois últimos atletas são Rodrigo Minotauro e Anderson Silva. Embora esses três atletas tenham partilhado por algum tempo a mesma academia e o mesmo  treino todas as manhãs, eles pareciam estar com uma grande  distância um do outro em termos de objetivo. Esta comparação entre estes três atletas nos faz pensar e traduzir o verdadeiro sentido da palavra comprometimento consigo mesmo.

Isso traduz o espírito dos atletas campeões e das pessoas bem sucedidas. Vemos isso acontecendo nas equipes de várias profissões, nas carreiras e nos negócios de uma forma geral. Estamos passando por uma das maiores crises do século no nosso país, muitos empresários e profissionais com quem conversei me disseram que tiveram um ano difícil demais.

Encare as dificuldades pensando em passar por elas com maestria

O que eu achei interessante foi que alguns dos que estavam tendo dificuldades foram capazes de listar muitas razões para os problemas que estavam tendo e eles defenderam suas razões assim como o nosso amigo falou das lesões que atrapalhavam o rendimento dele …  Como se eles acreditassem que o sucesso das suas carreiras estivesse completamente fora de seu controle.

Por outro lado, eu falei com outras pessoas que estavam otimistas e tiveram um  ano bom em suas carreiras mesmo com as dificuldades. Falei com empresários e vendedores que mesmo confiantes e otimistas pareciam inquietos e insatisfeitos com o que tinham rendido por conta da crise econômica.

Eles admitiriam ter desafios grandes, mas eles não se abalaram com isso. Em vez disso, eles estavam gastando conscientemente seu tempo em soluções. Eles entenderam que não poderiam ser incapazes de controlar o vento, mas podem ajustar as velas. Eles inerentemente sabiam que só eles tinham a chave para o seu sucesso.

Resultado, independentemente de qual é a sua profissão, você só vai ter sucesso se estiver focado naquilo que está fazendo sem deixar que qualquer obstáculo te impeça de vencer!

Eu gostaria de dizer que estou pessoalmente focado em superar as minhas  dificuldades  e limitações, que eu sempre estou tentando e trabalhando duro, com disciplina e comprometimento e quando não estou tão bem e me pego cansado nos treinos, com dificuldades e executando o meu treino perto do nível de intensidade  do primeiro atleta, ou seja, num ritmo mais lento, paro e penso no meu irmão e no Anderson e consigo pegar um fôlego maior para tentar mais e mais.

E você também pode fazer isso, tenha como referência algum profissional dentro da sua área de atuação e pense nele como estímulo para trabalhar mais e melhor.

Felizmente tenho uma equipe boa que me ajuda e me direciona a voltar ao meu ritmo e nós vemos o que acontece quando treinamos e trabalhamos duro e focado para os próximos desafios: nós vencemos. Porque podemos melhorar sempre  e estamos em constante aprendizado apesar de treinarmos duro diariamente

Constantemente nos reunimos com a equipe para fazer uma reflexão de tudo que fizemos de certo e errado durante o período de camping para uma competição, momento de reavaliar estratégias, equipes e focar nas mudanças que temos que fazer para melhorar e chegar mais perto de atingir a nossas metas. Avaliamos também os adversários e estratégias.

Para manter o foco e buscar ótimos resultados, precisamos de disciplina aliada a um grande trabalho em equipe para alcançarmos o sucesso.

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