União entre mestre e discípulo: hierarquia, disciplina e lealdade

União entre mestre e discípulo: hierarquia, disciplina e lealdade

Cena do filme Karatê Kid

A gente vive em uma sociedade individualista. Raramente confiamos 100% em alguém porque somos treinados desde crianças que não devemos acreditar em tudo o que as pessoas falam. No resumo da ópera, as pessoas não são confiáveis – de uma maneira geral -.

A palavra de um homem deixou de ser algo valioso, como nos tempos medievais em que simplesmente o que se dizia era lei. Não sei bem quando começamos a perder esta fé no homem, em nós mesmos… Eu só sei que perdemos.

Então como um mestre de artes marciais consegue criar este vínculo com os seus pupilos a ponto de tudo o que ele disser se tornar lei? Qual é a receita que um mestre usa para que seus alunos acreditem 100% nele dentro e fora do tatame, do octógono ou do dojô?

Talvez a receita seja mais fácil de preparar do que se possa imaginar. Independente de crianças e adultos, um mestre inspira. Como eu já disse anteriormente, ele é a ponte entre o sagrado (a arte marcial) e o praticante dela.

Não importa a arte marcial que você esteja praticando. Seja muay thai, judô, jiu-jitsu, sambo, krav maga: o que o mestre diz tem de ser lei, há de ser seguido porque é o correto e ninguém contesta isso.

E como não contestar, principalmente os adultos que sabem o que querem e o que não querem? Existe uma palavra que designa bem este relacionamento e ela se chama Fé.

O pupilo tem fé em que o seu mestre é a pessoa ideal para passar os ensinamentos de que ele precisa. Tem-se fé que dentro deste relacionamento se joga limpo, com honestidade e hombridade. Há uma atmosfera inexplicável (que só pode ser criada pelo mestre que sabe o que está fazendo) que desarma todo cidadão que sente a arte marcial invadindo cada pedaço do seu corpo.

Algumas pessoas dizem que a fé move montanhas. No contexto das artes marciais, para mim, ao menos, a fé te faz ganhar uma família e na família confia-se de olhos fechados porque desde crianças somos ensinados que nela podemos contar, é nosso refúgio, a nossa casa, é onde podemos retirar nossas armaduras e onde nos permitimos sermos quem somos, sem medo de cair do cavalo. Até porque quando a gente cai do cavalo, são com eles que retiramos a força para seguir em frente.

Quando me perguntam de onde vem toda esta fé em um ser humano em um mundo de caos, provas e expiações, eu me lembro de que, em essência, somos todos puros. E, talvez, se observamos as artes marciais como um todo, percebamos que é esta pureza que encontramos quando o mestre – sem por muitas vezes precisar falar – te mostra valores que quando menos esperamos estamos resgatando porque é intrínseco ao homem e então nos tornamos seres humanos melhores do que ontem, do que fomos condicionados a sermos por incontáveis motivos.

E é isso que faz das artes marciais algo tão sagrado, pois com ela e a partir do que você apreende com o seu mestre, entendemos que o mundo pode ser melhor com pequenos gestos aos quais podemos começar dentro de casa e em todos os nossos círculos sociais.

Por um instante, não mais que de repente, a gentileza e o bom coração abrem portas e conquistam sorrisos. E para mim, não há nada mais bonito que rostos sorrindo, felizes por viverem em um mundo melhor.

*Tamyris Torres é jornalista e pós graduada em jornalismo esportivo e negócios do esporte.

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